7.12.17

Bate-papo "Torquato Neto - poesia e canção" , sexta feira dia 8/ no Espaço Itaú de Cinema / Botafogo

Vá conhecer um pouco mais a respeito desse imenso poeta e letrista Torquato Neto
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6.12.17

Atenção Rondônia: O CD "Gaia", de Gioconda Trivério vai ser lançado no dia 20 de dezembro aí!

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Uma notícia boa: O álbum "Gaia", de Gioconda Trivério será lançado inicialmente em Rondônia, num show, dentro do Projeto Tacacá no Mercado Cultural em Porto Velho.
O show começa às 19 horas dentro de uma festança repleta de Tacacazeiras.
O evento será aberto ao público.
Depois do Norte esse show seguirá para o Sudeste, incluindo o Rio de Janeiro.
Giovana cantará com a sua banda, a mesma que gravou o CD com 10 músicas.

4.12.17

Charge: Abstinência Futebolística

Do fundo do baú: chargezinha "recall-chutada". Tema: crise de abstinência futebolística...
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2.12.17

Ilustração - Livros

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1.12.17

É hoje: Show do ano - Baltar & os Marianos

Show imperdível no Trapiche Gamboa...
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24.11.17

Lançamento de livro de Guina Ramos

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O fotógrafo e escritor Guina Ramos lança no próximo domingo, dia 26 de novembro o livro"[O dos] Bonecos e [a das] Pretinhas" ou, apenas, "Bonecos e Pretinhas, na Feira Cultural da Fotografia, nos jardins do Museu da República, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro!

"São mais de 300 fotografias dos arquivos do autor envolvidas em uma reflexiva novela que encaminha, comenta ou cita as fotos, atualizando-as, pela ficção, à luz dos fatos que nos invadem hoje."
Uma parte destas fotos serão expostas no espaço da editora Guina&dita.
Saiba mais sobre o livro em https://bonecosepretinhas.blogspot.com.br/


Os Jardins do Palácio do Catete ficam abertos à visitação pública durante todo o domingo e a Feirinha acontece das 10h às 18h.

23.11.17

35 anos sem Adoniran Barbosa / caricatura dele

Do fundo do baú " (Vale a pena ver de novo) : Ao assistir, agora pouco o programa "Tabelinha" do querido amigo Claudio Arreguy e do Trajano fiquei sabendo que hoje faz 35 que Adoniran Barbosa partiu para o andar de cima.
E o trem das onze, incrivelmente, passa todo dia pelo mesmo local na nossa imaginação e saudade.
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22.11.17

Charge: Impressões de viagem

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21.11.17

Lançamento do livro de cartuns "Puro Zero"

Já foi lançado no espaço nacional dos desenhos, Puro Zero,o livro do maravilhoso cartunista João Zero (que de vez em quando abrilhanta esse modesto blog com seu imenso talento).
Aqui vão algumas fotos do dia do lançamento.
Capa do livro

Umas páginas do livro

Retrato do autor, sua obra e momento do autógrafo


Ficha Técnica:
Formato A4
48 páginas
Colorido
Editora Criativo


O livro pode ser adquirido pelo site/ link: www.cartuns.com.br

17.11.17

Lançamento do livro "Tudo em volta está deserto"

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O Professor e escritor Eduardo Jardim lança no dia 22 de novembro, a partir das 19 horas, na Livraria Travessa/Ipanema, o livro Tudo em volta está deserto - encontros com a literatura e a música no tempo da ditadura.
Endereço:Rua Visconde de Pirajá, nº 572

14.11.17

Meu amigo o escritor (e grande desenhista) Jorge Lescano fez a travessia


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Hoje foi um dia imensamente triste. O dia em que fiquei sabendo da morte de um querido amigo. Um amigo que conheci no final dos anos 60 do século passado.
Soube hoje que Jorge Lescano terminou de fazer sua travessia no dia 6 de maio de 2017.
Essa vida corrida e cruel nos distancia dos amigos. E quando menos se espera, vem aquela notícia que te deixa sem norte, procurando um sentido nisso tudo. Você perdeu um amigo.
Até hoje de manhã, para mim ele estava vivo, e como sempre pensando as grandes e pequenas questões da estética, da narrativa, e escrevendo seus contos e novelas que funcionavam como textos criptografados, enigmas para serem decifrados num momento de grande lucidez da humanidade...Pensava nele lá em seu apartamento no edifício Copan, no meio de seus livros e desenhos... Não faz muito tempo (ou faz) ele me enviou seu último livro, que tenho aqui na estante e estava para ler e fiquei devendo uma resenha...
Ele, grande artista que não gostava de aparecer e por isso não botava sua fotografia na orelha de seus livros. Gostaria de publicar o seu retrato, não sei se seria uma traição...por enquanto publico as capas de seus livros, que é o que ele mais curtia...
Confesso, que tomado pela emoção fiquei paralisado até agora, não encontrando palavras para falar de sua falta.
Preferi então, "repostar" aqui o texto que fiz sobre um de seus livros.
Vou também solicitar à sua ex-companheira que me autorize a usar fotos que ela postou em seu blog, numa linda homenagem que fez a ele. Vale a pena ler seu texto delicado e emocionante. Aqui vai o link: http://www.recantodasletras.com.br/homenagens/6114918

Agora o meu texto que fala um pouco do amigo e autor Jorge Lescano e de seu livro "O traidor de Dublin"publicado em 9 de novembro de 2013.

O traidor de Dublin está na praça

(NR: Este é um texto que será corrigido - escrevi ao sabor da emoção de reencontrar um amigo e sua escrita - sem respirar, com uma pontuação claudicante cometi essa croniqueta)


Um novo livro misterioso e raro acaba de chegar às livrarias. Seu título já é um enigma Falsificação das didascálias do manuscrito d'O traidor de Dublin segundo o rei, a velha e o poeta de San Pablo City.
Seu autor é Jorge Lescano, um cidadão do mundo que nasceu na Argentina, terra de craques como Messi, Borges, Piglia y otros.
Alguns exemplares desse novo livro podem ser encontrados sites das livrarias Cultura, Martins Fontes e Asabeça. Não vou fazer uma resenha dessa obra, pois recebi o livro agora e ainda não consegui completar sua travessia. Pelo pouco que li, percebo que é uma aventura estética provocadora, um jogo com o prazer da escrita que suscita o prazer da leitura. Só queria escrever algumas linhas sobre seu autor - e nisto estou sendo injusto com Lescano, pois acredito que merecia um texto mais bem escrito, mas espero que ele encare como um depoimento de uma testemunha de seu imenso talento.
Foi entre os anos nebulosos de 1966 e 1967 que conheci o artista argentino Jorge Lescano. Acredito que ele tinha acabado de chegar ao Brasil naquela época e logo emplacou uma exposição na então prestigiada galeria da Folha de S. Paulo. Nela exibiu uma série de desenhos impressionantes, feitos a nanquim utilizando a técnica de bico de pena. Eu era um moleque que trabalhava como contínuo no Depto. de Promoções desse jornal por essa época. Sua exposição durou um bom tempo (que hoje não consigo me lembrar) e confesso que não me cansei de esquadrinhar aqueles desenhos magníficos toda vez que entrava no prédio para mais uma jornada de trabalho.
Tive poucas conversas com o artista em questão naquele tempo, mas percebi que era uma pessoa muito gentil- boa-praça mesmo, apesar de esgrimir uma ironia implacável.
A exposição um dia acabou, e sabe como é a paulicéia desvariada, cada um seguiu seu caminho. Jorge recolheu suas obras, e foi buscar seu destino naquela cidade polifônica. Eu, dentro de meu labirinto fui parar num laboratório de uma grande indústria química de São Miguel Paulista. Tinha que fazer um estágio, necessário para receber o diploma de técnico- químico, que acabei chutando para o alto, pois não entreguei o relatório da minha experiência. E não foi porque me recusei a escrever o tal texto, é que exagerei na dose e o dito cujo ficou imenso, a ponto de me perder nele, e como tinha que trabalhar, depois do estágio, fui me empregar num outro laboratório, este de controle de qualidade de uma fábrica especializada em envasamento de aerosol . Lá se envasava de tudo: inseticidas, perfumes, tintas, cosméticos, remédios, desodorantes etc. Resumindo: acabei ficando com um certificado de conclusão equivalente ao curso colegial considerado "científico" nessa época pois fornecia formação em exatas (existia o ramo chamado de clássico voltado para humanidades). Nesse tempo eu alimentava a ilusão um dia terminar o relatório e obter meu diploma de químico. Mas num fim de uma certa tarde, num momento em que saí do laboratório para fumar, me encantei com o refugo que jazia nos fundos da fábrica - era um lixo colorido e luminoso, que bateu na minha cabeça como uma metáfora do fim da nossa civilização técnico-científica.O tropicalismo estava em cartaz… Em vez de terminar o relatório, comecei a escrever uma peça de teatro anárquica, na qual um grande cientista se recusa a fornecer o código de um descobrimento fundamental, que serviria para destruir a humanidade. Foi aí que desisti daquela profissão de "químico cheiroso", e acho que com essa atitude salvei minha vida, pois sempre fui um alérgico de carteirinha e sofria por trabalhar num ambiente onde conviviam os mais variados odores. Aquela mistura de cheiros de inseticidas (mata-barbeiro , mata berne, mata-barata, e mata outros insetos e bichos escrotos) perfumes baratos, remédios para asma, aromatizardes de ambiente, tudo aquilo estava penetrando pelos meus poros, tomando conta dos meus pulmões, fazendo com que eu me transformasse num sujeito movido a espirros… Para desespero da minha família resolvi sair daquele mundo industrial e levado por um livro de Talcott Parsons (que ironia!), acabei desembocando num cursinho vestibular. Lá, com auxílio luxuoso de uns amigos, cai dentro de um curso de Sociologia, no auge da ditadura, e por tabela fui trabalhar numa fundação que operava em favelas e bairros operários … Acho que é bom parar de relatar essa minha história.
Na verdade esses detalhes não importam, e sim, que um belo dia, perto do final dos anos 70, tornei a encontrar com Lescano, mas não me lembro bem das circunstâncias. Recordo que chegamos até a trabalhar juntos como "especialistas em comunicação" nessa fundação, mas isso não durou muito e nossa dupla criativa logo se defez. Nesse meio tempo eu casei, comecei a publicar ilustrações na chamada imprensa alternativa, sofri um acidente numa mini-moto e acabei saltando fora de Sampa.
Junto com minha primeira mulher que carregava um filho para nascer fui morar no Rio de Janeiro. Consegui, depois de muita luta entrar para o Jornal do Brasil e fiquei na redação por uns 30 anos e fumaça desenhando, escrevendo e aprendendo…um tempo do qual não me arrependo.
Lembro que logo nos início do ano de 1977 Lescano e sua esposa estiveram hospedados na minha casa numa visita ao Rio para conhecer as belezas dessa cidade. Chegamos a esboçar uma visita a uma escola de samba, mas nos perdemos no meio do caminho...

Nas minhas voltas aos campos de Piratininga para visitar minha família, que insistia em permanecer contemplando a solidez do Tietê, de vez em quando mantinha contato com meu amigo artista. Por essa época Lescano tinha bolado uma oficina de criação de texto - o que me surpreendeu. Ensinava jovens talentos a penetrar na atmosfera da escrita. Mais tarde publicou um livro de contos pela editora Ática, que tinha por título Amanhã São Péron (1978). Soube agora que em 1983, publicou Os quitutes de Luanda, pela editora Criar de Curitiba…..
O tempo passou e ele continuou sua tarefa de mestre, agora ensinando Teoria do Teatro. Para minha surpresa, por meio da internet conseguimos nos reencontrar (acho que ele me achou nesse blog), e hoje recebi seu livro O traidor de Dublin…que mais posso dizer? É um novo reencontro com o talento desse amigo que tece labirintos e enigmas textuais. Jorge é um talento múltiplo, dono de uma bagagem intelectual imensa e invejável que a universidade até agora perdeu. Era para estar dentro de um departamento de alguma faculdade de comunicação, letras, teatro ou artes cênicas organizando cursos, transmitindo seu conhecimento e beneficiando as novas gerações com sua criatividade. Vou parar por aqui, volto ao livro de Lescano,Dublin me espera.
***
Para finalizar publico outro texto - esse pequeno que fala de outros livros de Lescano.(publicado no dia 26 de setembro de 2016)
Jorge Lescano reside no Brasil desde 1969. Escreve em português, mas sua formação é argentina. Seus relatos, escritos nas últimas quatro décadas, são breves e abordam temas variados, quase sempre sob uma visão cultural. Os motivos vão da pintura ao futebol, passando pela literatura, política, teatro, etc.
Publicou: Amanhãs São Perón (contos); SP, Ática, 1978; Os quitutes de Luanda (infantil, Curitiba, Criar, 1983 (Premiado pela Biblioteca Internacional da Juventude/Munique – Alemanha).
Publicou recentemente:O traidor de Dublin; Gol! e Diálogo do Rei e o Réu.
Os dois primeiros de relatos, o terceiro um romancete; (prefere este neologismo ao termo novela, sempre identificado com a TV).
No próximo sábado 1º. de outubro, Lescano estará lançando estes três livros na base do Pague se e quanto quiser, na TAPERA TAPERÁ, Galeria Metrópole (Atrás da Biblioteca Mário de Andrade); Av. São Luiz 187, 2º andar. São Paulo.
Horário: das15h às 18h.
Todo mundo lá!
Hasta siempre, grande amigo!
Viva Jorge Lescano!




11.11.17

Caricatura e homenagem a Oscar Niemeyer

Do fundo do baú: Caricatura de Oscar Niemeyer (recauchutada). Afinal o tempo é de comemorar os 110 anos do nascimento dele - que faria aniversário no dia 15 de dezembro desse ano. O homem nasceu em 1907!
Um pessoal se antecipou e foi inaugurada no dia 9 de novembro, uma exposição com os projetos e artes dele na Pinakotheke Cultural (em Botafogo).
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9.11.17

Caricatura em homenagem a Torquato Neto

Do fundo do baú: (Vale a pena ver de novo) Hoje é o dia dele - Torquato Neto, nasceu no dia 9 de novembro de 1944.
O poeta que desfolhou a bandeira e entendeu a geleia geral brasileira! Viva Torquato Neto!
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8.11.17

Viva Aldemir Martins!!!

Hoje é dia dele: Aldemir Martins, um dos maiores artistas gráficos-plásticos brasileiros.
Nasceu no dia 8 de novembro de 1922 e não morreu nunca.
É um dos meus mestres preferidos.
Ilustração (desenho em bico de pena, assinado, com a data de 1963) retirada das páginas de uma das obras-primas de Graciliano Ramos - "Vidas Secas".
(Editora Record - edição de 1978 das obras completas desse autor - em capa dura).
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7.11.17

Homenagem a Ary Barroso - caricatura

Do fundo do baú: (vale a pena ver de novo)
Caricatura de Ary Barroso. Hoje é dia do aniversário dele - nasceu no dia 7 de novembro de 1903, em Ubá (MG).
Hoje também é dia do radialista. Aumenta o volume e toca o barco (ou a gaitinha).
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2.11.17

Crônica de finados e desafinados


Requiescant in pace (*)
Num dia de finados de alguns anos atrás, comecei a fazer uma pesquisa sobre o tema da morte para cometer uma croniqueta e vi que precisava mais de uma vida para reunir todas as coisas interessantes que disseram sobre esse tema assustador e muitas vezes incômodo (para o mundo moderno - ocidental).
Escolhi então falar da parte amena do assunto. Daí, comecei pelos epitáfios (**), justamente a parte final do processo, talvez a inscrição do último pensamento do defunto (ou dos parentes) na fria pedra da lápide do túmulo e percebi que alguns deles têm lá sua graça.

Comecemos por Ramón Gómez de la Serna que disse uma coisa intrigante: “Ninguém sabe o que é morrer, nem os mortos”. Mas, observe que apesar disso muitos dos clientes dos cemitérios querem deixar alguma mensagem, talvez para distrair seus visitantes, enquanto estão vivos, e passeiam circunspectos pelas alamedas do derradeiro condomínio.
Diz um adágio popular que “o epitáfio é o último cartão de visitas de um homem”. Apesar de existir também aquele antigo ditado francês,“ser embusteiro como um epitáfio”, esse costume foi se enraizando na nossa cultura mortuária e nem sempre elogia o cadáver, ao contrário, muitas vezes ironiza os viventes e o próprio defunto. É o caso do Bispo de Langres, Louis Barbier, que no seu testamento ofereceu cem escudos para quem fizesse um epitáfio bacana. Ganhou o seguinte texto: “Aqui jaz um grande personagem/ Que foi de muito ilustre linhagem/ Que possuiu mil virtudes/ Que jamais enganou/ Que sempre foi prudente/ Não vou dizer mais nada/ Seria mentir muito por cem escudos”.
Alexandre o Grande recebeu um, que fez juz à sua fama: “Uma tumba agora é o bastante para quem o mundo não era suficiente”.
Molière, parece que escreveu seu próprio epitáfio: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”.
No seu túmulo, Passerat adverte: “Amigos, não encham minha tumba com maus versos”.
O do filósofo Diógnes é muito sarcástico: “Ao morrer joguem-me aos lobos, já estou acostumado”.
O epitáfio do poeta Antonio Espina é uma pérola de embriaguez: “Aqui jaz de boca para cima aquele que caiu de bruços, muitas vezes, na vida”.
Também existem epitáfios inventados; um, feito pelo escritor Max Aub para a tumba de D. Juan, é de morrer de rir: “Matou quem ele quis”. Falando em humoristas, Grouxo-Marx mandou escrever no seu ‘apart-mortel’: “Desculpe-me por não me levantar, Madame”.
Orson Welles, mesmo depois de passar desta para melhor, manteve sua genialidade. No seu túmulo está gravado: “Não é que eu tenha sido superior. Os demais é que eram inferiores”. Miguel de Unamuno, por sua vez, fez também sua última gracinha: “Só peço a Deus que tenha piedade da alma deste ateu”.
Na tumba do compositor Bach está escrita uma mensagem de duplo sentido: “Daqui não me ocorre nenhuma fuga”.
O escritor H.L. Mencken sugeriu um texto final que tem todo o seu humor: “Se depois que eu partir deste vale, você se lembrar de mim e pensar em agradar meu fantasma, perdoe algum pecador e pisque seu olho para uma garota feia”.
Existem os epitáfios profissionais. Por exemplo, o de Benjamin Franklin, inventor e impressor, entre outras coisas, é muito criativo. Diz o seguinte: “O meu corpo, como um velho livro, sem enfeites aqui jaz. Alimento para os vermes. Porém, acredito que aparecerei, em breve, numa nova edição, corrigida e melhorada pelo Autor”.
Na tumba do transformista Fregoli, em Viareggio está escrito: “Aqui ele realizou sua última transformação”. No de um apreciador do ócio: “Aqui Fray Diego repousa. Jamais fez outra coisa”. Outros celebram a guerra conjugal. Em Guadalajara, existe o verdadeiro epitáfio da viúva alegre: “A meu marido, falecido depois de um ano de matrimônio. Sua esposa com profundo agradecimento”. Em contrapartida, em outro cemitério encontra-se a vingança de um esposo insatisfeito: “Aqui jaz minha mulher, fria como sempre”.
Não podemos esquecer daqueles tipo ‘Procon’: “Voltarei para me vingar dos bancos”.
Em Minnesota encontra-se outro que é genial: “Falecido pela vontade de Deus e mediante a ajuda de um médico imbecil”.
Dizem que num cemitério do Rio de Janeiro existe um que brinca com o caráter bélico de seu morador: “Aqui jaz o General X. Transeunte, passe tranquilo. Está morto!”.
Mas, nada se compara à sinceridade da inscrição que se encontra num cemitério da Catalunha: “Levantem-se vagabundos, a terra é para quem trabalha”.
O de Allan Poe, sem brincadeira, supera todos, é a citação do seu famoso poema O Corvo. Realmente é definitivo: “Nunca mais”.

(*) “Descansem em paz”. Palavras do Ofício dos Mortos, encontradas no portal de muitos cemitérios - retirado de Não perca o seu latim, de Paulo Rónai (Editora Nova Fronteira)
(**) Soube que na sua origem, o epitáfio se constituía num privilégio da nobreza.
FONTES: Diccionario Ilustrado de la Muerte de Robert Sabatier (Gustavo Gilli- Barcelona)
www:geocities.com/soHo/studios/72581/epitafio.html-8k , http://platea.pntic.mec.es/~jescuder/epitafio.htm,Epitaph Index(A-Z).
Um leitura interessante é o ensaio histórico-antropológico de Philippe Ariès "História da Morte no Ocidente - da Idade Média aos nossos tempos"

1.11.17

A celebração do gênio musical - Pixinguinha

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Brasil festeja os 100 anos da obra prima Carinhoso e os 120 anos de Pixinguinha


Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)


Os 120 anos de Alfredo da Rocha Viana Filho (23/4/1897 Rio de Janeiro, RJ - 17/2/1973 Rio de Janeiro, RJ), o genial Pixinguinha, estão sendo celebrados, desde 23 de abril de 2017, e revelam o amor e o reconhecimento dos brasileiros pelo mestre do choro e da MPB. E o 23 de abril se transformou não só no dia de São Jorge, mas no Dia Nacional do Choro, para reverenciar o aniversário de Pixinguinha. Assim, mesmo tendo sido registrado em outra data, 4 de maio, como se descobriu há pouco tempo, o músico tem sua biografia ligada definitivamente ao 23 de abril. E, em 2017, comemora-se ainda os 100 anos de "Carinhoso", obra prima de sua autoria, criada em 1917, e que ganhou letra, em 1937, de Braguinha (Carlos Alberto Ferreira Braga, o João de Barro, Rio de Janeiro, 29 de março de 1907 - Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2006).
O acervo pessoal do compositor, instrumentista, arranjador e maestro encontra-se sob a guarda do Instituto Moreira Salles (IMS) e, desde 2000, os documentos pessoais, medalhas, troféus, álbuns com recortes de jornal, centenas de fotos, roupas, registros de memória oral realizados por seu filho Alfredo da Rocha Vianna Neto, o Alfredinho, a flauta tocada durante décadas pelo músico e um lote de aproximadamente mil conjuntos de partituras com arranjos feitos por Pixinguinha ao longo da vida estão sendo digitalizadas, catalogadas e estão sendo consultadas e estudadas por músicos de todo o país e de fora. E esse resgate da criatividade de Pixinguinha é o maior tributo que se pode prestar ao seu talento musical.
O IMS, em parceria com o Hacklab, também homenageou o músico com a criação do site pixinguinha.com.br, reunindo e disponibilizando todo o acervo, sob a coordenação da pesquisadora Bia Paes Leme, que articulou junto com o pesquisador Pedro Aragão e o pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, a realização do primeiro catálogo crítico de obras de Pixinguinha, abrangendo 515 verbetes, onde se destacam cerca de 300 ou 400 músicas do autor, incluindo 45 preciosidades musicais ainda inéditas.
Portanto, ao celebrar o centenário de Carinhoso e os 120 anos do mestre Pixinguinha, o país reafirma a importância de um de seus mais influentes músicos do século XX e que, em pleno início de século XXI, permanece como uma das referências maiores da Música Popular Brasileira. A criatividade do arranjador, compositor, instrumentista e maestro só encontra paralelo em outros dois gigantes da nossa música: Heitor Villa-Lobos (1887 - 1959) e Antonio Carlos Jobim (1927 - 1994). Nunca é demais salientar que Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se constituíram na Santíssima Trindade da Música Popular Brasileira, e abriram perspectivas musicais para além de seu tempo ao criarem, cada um a seu modo, uma obra musical inventiva e inspirada nas coisas do Brasil.

A Santíssima Trindade da MPB


Assim, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha estão para a MPB como Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie Parker estão para o Jazz, como a Santíssima Trindade do Bebop. Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charlie ‘Bird’ Parker encarnaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo no bebop, uma verdadeira revolução que lançou as bases do jazz moderno. A linguagem do jazz, a partir do bebop, entre 1944 e 1949, foi alterada radicalmente seja melódica, seja rítmica e harmonicamente, determinando uma ruptura com o tradicional. O jazz, com o bebop, passou a ser arte e não mero divertimento. Ao contrário do swing, o bebop não servia para dançar, daí sua pouca penetração popular, e mesmo músicos em ascensão, como Bird, Dizzy e Miles, eram atingidos pelo preconceito contra a música negra. No Brasil, ao longo do século XX, Villa-Lobos, Tom Jobim e Pixinguinha se projetaram como o Pai, o Filho e o Espírito Santo da MPB, a nossa Santíssima Trindade da MPB, que injetou sangue novo expandiu horizontes, além de conquistar prestígio e respeito mundo afora.
O pesquisador e biógrafo de Pixinguinha, José Silas Xavier, ressalta que Pixinguinha foi um flautista incomparável e mereceu de Mário de Andrade a inclusão de seu nome entre as maravilhas da flauta brasileira. E, Sérgio Cabral, o pai, crítico respeitado e também biógrafo de Pixinguinha, além de autor do livro "Pixinguinha / Vida e Obra" (Editora Lumiar), enfatiza que o músico foi o maior flautista brasileiro de todos os tempos, opinião compartilhada por José Silas Xavier, mesmo considerando a grandeza de Patápio Silva (1880 - 1907), que pode ser constatada nos velhos discos da Casa Edison, ou a grandeza de Joaquim Antônio da Silva Callado Júnior (1848-1880), considerado por muitos como o “pai dos chorões”. Callado não deixou gravações, mas segundo Silas Xavier, deixoua fama de exímio flautista em depoimento dos que o ouviram.
E Silas Xavier destaca que, nos anos 1940, por motivos não muito claros, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e não foi menos genial. Quem tiver a oportunidade de ouvir as gravações de Pixinguinha com o flautista Benedito Lacerda poderá comprovar a beleza dos seus contrapontos, verdadeiras obras primas da utilização do contraponto na música popular, sempre criativo e nunca óbvio. Villa-Lobos adorava esses contrapontos e Basílio Itiberê dizia que os aprendera com Bach e Pixinguinha.
Ainda segundo José Silas Xavier, o Pixinguinha maestro teve papel de extraordinária importância, bastando lembrar sua participação à frente dos 8 Batutas em 1919, da Orquestra Típica Pixinguinha / Donga no final dos anos 1920, do grupo da Guarda Velha e dos Diabos do Céu - orquestras criadas por ele nos anos 1930 para gravações da Victor, onde era regente - e do Grupo da Velha Guarda na década de 1950, "num abençoado momento de redescoberta da Música Popular Brasileira mais tradicional em festivais, shows e gravações na extinta Sinter", como escreveu o pesquisador e crítico João Máximo.
A presença de Pixinguinha como orquestrador é marcante, segundo aponta Silas Xavier, seja nos deliciosos arranjos para marchinhas carnavalescas ou juninas, ou para as polcas e maxixes da Velha Guarda. Sua importância como orquestrador cresce à medida em que se sabe ter sido ele um dos pioneiros em fazer arranjos para músicas nossas e o responsável pela implantação de uma linguagem instrumental caracteristicamente brasileira, como acentuou o maestro Júlio Medaglia.
Para Silas Xavier, o compositor Pixinguinha pode ser ouvido em inúmeros lançamentos após a morte do mestre da MPB. Apesar de não ser muito extensa, sua obra é de cerca de 300 composições conhecidas e mais umas 100 inéditas. Autor de valsas, polcas, maxixes, sambas e tudo o mais, é nos choros que se pode melhor apreciar sua genialidade. "Carinhoso", que completa 100 anos de sua criação, "Ingênuo", "Vou Vivendo", "Cinco Companheiros", "Naquele Tempo", "Lamento" e "Sofres Porque Queres", na opinião do pesquisador Silas Xavier, são exemplos de sua grandeza como compositor.

Nascido em berço musical

Pixinguinha nasceu no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, e foi criado num ambiente musical. Seu pai era flautista e gostava de reunir músicos em sua casa para tocar. Nessas reuniões, revela José Silas Xavier, tocava-se quadrilha, polca, valsa, xótis ou mazurca, já que a palavra choro não expressava ainda, no início do século XX, a categoria de gênero musical. Por essa época, choro era a denominação dada aos pequenos conjuntos de música popular que executavam aquele gênero "chorado", plangente, normalmente constituído de flauta, violão e cavaquinho (terno), formação que foi se ampliando ao longo do tempo pela incorporação de outros instrumentos. O choro, enfim, segundo José Silas Xavier, era a maneira brasileira de tocar os importados gêneros musicais dançantes da época.
"Nascido na década de 1870 nas biroscas da Cidade Nova e nos quintais dos subúrbios do Rio de Janeiro, o choro tinha como componentes, no geral, funcionários dos Correios e Telégrafos, da Estrada de Ferro Central do Brasil, da Imprensa Nacional e da Alfândega, que se reuniam por puro lazer domingueiro e pelo prazer de fazer música", como ensinou o musicólogo, historiador, pesquisador e violinista Mozart de Araújo (1904 - 1988), autoridade no assunto. E entre os chorões que frequentavam a casa de Pixinguinha estava Irineu de Almeida (1863 - 1914), excelente músico, tocador de oficleide, bombardino e trombone, de grande influência em sua formação musical.
A propósito das reuniões na casa de Pixinguinha, o músico declararia em depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro: "Eu menorzinho, ficava apreciando... gostava de música. Por volta de 20 ou 21 horas, meu pai dizia: menino vai dormir. E eu ia para o quarto. Mas não dormia, não. Ficava ouvindo aqueles chorinhos que eu gostava tanto". No depoimento ao MIS, Pixinguinha ainda arrematou a questão: "Na época eu já tinha uma flauta de folha. No dia seguinte, executava os chorinhos que tinha aprendido na véspera, de ouvido". O pesquisador e biógrafo José Silas Xavier afirma que esse ambiente de casa interferiu decisivamente na formação musical de Pixinguinha e seus irmãos, e se reflete nos seus choros maravilhosos e inventivos.
Pixinguinha vivenciou no Rio de Janeiro, ao lado de Donga (05/04/1890 - 25/08/1974) e de João da Baiana (17/05/1887 - 12/01/1974) , a criação do samba e da base musical para o se convencionou chamar de MPB e, lançando mão da inventividade e da inspiração, articulou com precisão a simplicidade e a sofisticação, criando uma música inovadora, com destaque para a valorização da riqueza melódica. A essência afro-brasileira impregnou a obra de Pixinguinha e sua trajetória como um dos mestres da música popular brasileira é uma fonte de inspiração de intensidade ilimitada.
Villa-Lobos, perguntado num workshop na França sobre onde estudou, respondeu: "Na Universidade de Cascadura". E, de pronto, veio nova pergunta sobre quem foram seus mestres. Após um silêncio, o maestro, arranjador, compositor e instrumentista respondeu sério: " Pixinguinha, Donga, Sátiro Bilhar".
E o mestre da arte brasileira, Di Cavalcanti, não fez por menos ao declarar poeticamente: "Terra carioca / Senhora e dançarina / Do norte ao sul, sempre embalada em sonhos / Ouvindo o carinhoso e amável canto / do Rei da flauta e do saxofone / Meu irmão em São Jorge / Meu irmão Pixinguinha".

31.10.17

Viva Drummond!

Do fundo do baú: Caricatura e ilustração de Carlos Drummond de Andrade.
Hoje sempre será o dia do aniversário dele. Nasceu no dia 31 de outubro de 1902, em Itabira, nas "Minas Geraes".
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30.10.17

Aniversário de Maradona! Parabéns a El pibe! (caricatura)

Traço rápido: Desculpe o atraso, é que só consegui um tempo agora. Parabéns Mestre Diego Armando (Siempre) Maradona!
La mano? Es la de Dios!!!
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Ainda sobre Maradona, um cartunzinho
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28.10.17

Cartunzinho para tentar alegrar o final de semana

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27.10.17

Caricatura de Fats Domino

No dia 24 de outubro (três dias atrás) deste ano faleceu Fats Domino, um do caras que inventou o rock e eu deixei passae batido. Aqui vai minha homenagem tardia. Viva o grande Fats Domino!
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26.10.17

Algumas Biografias de Stalin - Fim


Stalin - O fim - Uma biografia política por Deutscher

Escrita ainda quando Stalin vivia, “Stalin – Uma biografia política” é a parte inicial do projeto de uma trilogia que incluia a vida de Lenin e de Trotski. Seu autor, Isaac Deutscher, falecido em 1976, pode-se dizer foi um excepcional conhecedor da política soviética.
Confessou que nesta obra se envolveu num difícil trabalho de historiador que procurou se impor ao de ex- militante trotskista derrotado pelo biografado.
É interessante notar que ele reclamava que sua obra foi mal interpretada: acusado por uns de dar uma visão simpática do ditador e por outros de ter escrito um libelo terrível contra ele.
O resultado é uma biografia no sentido tradicional,(coisa que os trabalhos de Montefiore e dos irmãos Medvedev não são) que permite entender Stalin como animal político, que esclarece o contexto de sua ação: vai de sua infância e formação até sua vitória da segunda Guerra. Num pós-escrito avalia os anos finais de Stalin, quando sua figura foi diminuída por acontecimentos, tais como, entre outros, o triunfo da Revolução chinesa e as provocações do Marechal Tito. Mostra também que seu personagem se tornou anacrônico e seus métodos obsoletos com a modernização da URSS.
Nas suas palavras, o stalinismo que havia expulsado a barbárie da Russia por meios bárbaros criou as condições para que sua face positiva derrotasse a face negativa. Sua magnífica biografia de Trotski,(na trilogia Profeta armado, Profeta desarmado e Profeta banido) é também referência obrigatória para compreender o papel de seu arqui-inimigo Stalin e a complexidade da experiência soviética.
Na verdade, os três livros vistos nesta resenha esclarecem partes do fenômeno: se um megulha na intimidade, outro em estudos de caso, o último elabora a explicação dessa figura que constituiu um dos exemplares raros em que ocorre o fenômeno, no qual, se funde personalidade e história.Principalmente porque tinha o poder para escrever a sua própria versão.

25.10.17

Algumas Biografias de Stalin - Parte III


Stalin- Capítulo 3 - O Desconhecido

Em “Um Stalin desconhecido” os irmãos Zhores e Roy Medvedev elaboraram 15 ensaios que contemplam temas obscuros e polêmicos da biografia do líder soviético. Esses georgianos e ex- dissidentes demonstram uma visão objetiva, não contaminada pelo rancor, mas nem por isso condescendente com a figura de Stalin. Não o vêem, por exemplo como um usurpador, mas legítimo representante de uma tendência dentro da elite do partido bolchevique e que lutou arduamente entre 1923 a 1929 para “ascender ao papel de ditador”. No entanto, também não o consideram uma autoridade carismática, (e aí lançam mão de uma classificação weberiana da autoridade), mas sim como portador de um tipo de “prestígio” alcançado pelo funcionamento de uma máquina bem azeitada que produzia o que chamam de “megaproganda”.
De início desconstroem a lenda que envolve a sua morte, no qual descartam a hipótese de conspiração e envenamento que consta em vários livros. A seguir especulam sobre a existência de um herdeiro que permaneceu como eminência parda.
Examinam também o destino dos famosos arquivos secretos de Stalin que foram confiados a Beria, Malenkov e Kruchev e viraram fumaça. Revelam o objetivo por trás da destruição sistemática da memória stalinista e seus colaboradores: apagar as marcas de sangue do passado, e outros crimes, já que boa parte desses arquivos continham os famosos dossiês incriminadores que faziam parte do método de Stalin chantagear e obter a lealdade de seus comandados. Além disso, a liderança emergente temia a existência de diretrizes testamentárias do falecido que poderiam atrapalhar suas carreiras. Concluem com uma rematada bobagem: ver nesses atos de destruição da memória algo positivo. Os bastidores do famoso 20º Congresso do PCUS também é esmiuçado. Focalizam principalmente o impacto que as denúncias de Krushev tiveram na URSS, o desmanche dos gulags e o fenômeno do surgimento de duas Russias, coisa pouco estudada.
Um grande capítulo é dedicado à questão das armas nucleares. Nele dão uma pequena aula de química e física, especificando detalhes das dificuldades de construção das bombas de urânio, plutônio e de hidrogênio. E mostram o enorme esforço soviético para acompanhar os EUA, desde a mobilização de cientistas que competiam com os rápidos computadores americanos até espiões e colaboradores comunistas que mandavam suas descobertas do ocidente. Capítulo especial é dedicado ao “gulag atômico”, o uso de campos de trabalhos forçados com milhares de prisioneiros envolvidos na edificação de verdadeiras cidades, num projeto ultra-secreto que teve grandes e graves acidentes numa corrida que não economizou vidas nem de sua elite científica. A seguir narram o tragicômico episódio, onde o tenente Razin, admirador de Clausewitz perdeu uns dentes mas ganhou a patente de general.
Grotesca também é a participação do doutor Lysenko, um lamarckiano de carteirinha, na história das ciências biológicas soviéticas e no azar de vários colegas que discordavam de suas teorias.
Noutro capítulo, mostram a ambição risível que Stalin alimentava de ser um intelectual e como dava pitaco em tudo, inclusive na área da linguística. Orwell iria adorar esta parte. Dois ensaios dão conta o comportamento de Stalin durante a segunda grande Guerra mundial que segundo eles foi positiva. O líder não tremeu nas bases. Nisso estão em desarcordo com Montefiore. Não deixam de registrar que parte da debilidade das forças soviéticas, durante os embates teve origem nos expurgos que ocorreram nas suas fileiras quando grande parte da oficialidade do Exército Vermelho e da Marinha foi presa ou fuzilada. A seguir falam de um general injustiçado pela história, Josef Apanasenko, e revelam como ele foi um grande herói da Guerra sem ter participado do combate direto. Na última parte do livro, tratam da feição russa nacionalista do ditador georgiano a começar pela transformação dos seus retratos oficiais. Mostram a divergência com Lenin que inicialmente havia se impressionado com sua performance, mas discordava de sua posição não internacionalista e de seu projeto de constuição em moldes centralizadores. Essa versão contradiz Montefiori que disse ter Lenin se interessado pela idéia de Stalin de manter o império Russo unido. Antes de fechar o livro, é exposta a face sádica de Stalin quando da eliminação de Bukharin, um dos melhores quadros da revolução. Por fim falam da relação fria do líder da URSS com sua mãe, que nem nos funerais dela compareceu.
(Amanhã Final da Resenha)

24.10.17

Algumas Biografias de Stalin - Parte II



Stalin - Capítulo 2- Montefiore entra nos arquivos secretos

O Czar Vermelho
Pode-se dizer, sem nenhuma dúvida que Montefiore escreveu um livro de peso. Exatamente 1 quilo e 280 gramas de uma longa e detalhada narrativa de 860 páginas carregadas de juízos nada elogiosos ao camarada Stálin. Seu trabalho é menos uma biografia e mais uma crônica de corte. A forma de contar flerta com a ficção. Em certas ocasiões utiliza de recursos literários para reconstruir diálogos, ou narrar situações que encadeiam a evolução do personagem principal até chegar a se tornar o czar vermelho. Privilegiando ações, descoladas do contexto histórico social, o autor adota uma perspectiva rasa que não capta o significado da trajetória desse controverso dirigente. Tudo parece uma sucessão de perversidades, um guia de um museu de horrores.
Parece soar falsa também a boa intenção de Montefiore que diz pretender superar a grande parte das biografias de Stalin que, segundo ele, tendem a apresentá-lo como uma aberração. Isso não o impede de acolher insinuações tais como a de que Stalin foi um agente da Ohkrana (polícia secreta do czar)nos seus tempos de subterrâneo. Ou quando solta frases que não escapam à sede de mostrar Stalin como um anormal e os bolcheviques como um bando de cruéis beberrões sanguinários. Fica a impressão que se está diante de mais uma peça condenatória, uma espécie de chute em cachorro morto, que em nada contribui para uma consistente avaliação do personagem em questão. Mas, mesmo não se livrando desse cacoete, num “morde assopra”, na medida em que avança no texto, o autor parece compreender a complexidade do biografado e se se perdoar suas recorrentes frases de efeito (tais como “A base do poder de Stalin no Partido não era o medo :era o charme”)- o livro, faz um retrato aceitável, na medida em que deixa que a intimidade revelada do biografado faça o serviço de mostrar as inúmeras e contraditórias facetas desse tirano que não poupou nem seus camaradas, suas famílias, e chegou a sacrificar seus próprios parentes.

Um dos méritos do livro é revelar seu “modus operandi” brutal de dominar onde segundo o autor, refinou os, “métodos jesuíticos” que aprendeu em sua formação de seminarista. Mostra como aplicou o procedimento inquisitorial, onde se destacam a necessidade de confissão das vítimas, o arrependimento e a fogueira. Mas o que se evidencia da leitura dessa imensa crônica é o talento ficcional de Stalin, capacidade que usou em toda sua vida para fazer o roteiro no qual, ele adapta a realidade à sua visão. Outro aspecto que chama a atenção é a paranóia como sistema de governo e o estímulo das rivalidades que não eram poucas, entre a elite de seus comandados.

Apesar de querer mostrar que as obras do período stalinista, para o bem ou para o mal, não foram produto de um só homem, o que se destaca no livro é a onipresença de Stalin. Por trás de cada vírgula dos discursos, das estrofe de poemas, dos fotogramas de alguns filmes, de decretos de expurgo ou de reabilitação, lá estava a sua chancela.

Montefiore apresenta tudo como se fosse uma grande ópera de tons trágicos. Logo de cara, joga o leitor numa tensa cena decisiva - no fatítico 8 de novembro de 1932 quando relata o solo tresloucado da segunda mulher de Stalin. Uma perturbada Nádia se retira de um jantar festivo e se suicida com um tiro de uma Mauser em seu quarto, no Palácio Potechny. O autor, que afirma ser o suicídio uma morte bolchevique, localiza neste momento o ponto de mutação do personagem que abatido pelo que depois classificou de traição de sua mulher que por sua vez o acusava de infernizar a vida de todo mundo,irá mergulhar a URSS no terror.
Após essa grande entrada , o autor recua para num curto esboço biográfico contar como Ióssif Vissariónovitch Djugachvili, conhecido pelos íntimos como Soso , na clandestinidade como Koba(camarada fichário) e mais tarde por todos como Stálin vai se transformar no homem forte da URSS. Parte da sua ascenção é narrada em lances rápidos, onde derrota seus companheiros Zinoviev e Kamenev que junto com ele compunham o triunvirato que sucedeu à morte de Lenin (que havia recomendado o seu afastamento do cargo de secretário geral em testamento ditado no leito de morte e que foi espertamente escondido) e vai até 1929, data que marca a sua projeção como líder. Momento que nas palavras do autor, a história que ele quer realmente contar começa . Ressalta que nesse ponto ele não era ainda um ditador. Era o duro bolchevique já havia vencido de forma inexplicavelmente fácil a disputa com Trotski que foi obrigado a se exilar e neutralizado a oposição de Bukharin e Rikov que mais tarde seriam eliminados. É aclamado verdadeiro sucessor de Lenin. A partir dai, gradativamente construirá a arquitetura de sua tirania até sua polêmica morte em 1953.
Assim acompanhamos os vários momentos de um longo libreto mórbido: o massacre dos kulaks, a coletivização forçada, a grande fome, o terror dos anos 1936/37, os expurgos que darão vazão à paranóia como sistema de governo, a invenção das conspirações como método para eliminar os adversários e criar a aparência de um poder sem dó que pune exemplarmente, como no caso do massacre dos oficiais do Exército vermelho que debilitou o URSS nas vésperas da segunda grande Guerra. Neste episódio, Montefiore compra uma versão onde Stalin aparece débil e vacilante não questionando as versões em que se baseou.

Montefiore procura sempre descrever os cenários onde ocorrem as decisões em jantares pantagruélicos regados a muita vodka, sessões de cinema na madrugada em palácios do Kremlin ou nas dachas preferidas do dirigente. Outras vezes os surpreende em trens blindados e à medida que a história avança, vai apresentando um a um os coadjuvantes, os “potentados”, ou “magnatas”, como ele os classifica. Mostra o Partido como uma família incestuosa e o bolchevique como uma espécie de templário. Faz brevissimos perfis para orientar o leitor nos intrincados labirintos soviéticos. Fica-se assim conhecendo um pouco da vida de pessoas que viveram à sombra do grande chefe, sendo que alguns foram suas vítimas, gente como : Kirov, Molotov, Kalinin, Tukhatchviski, Kagánovitch, Sergo Ordjonikidze, Proskrióbichev, Vorochílov, Mikoian, Béria, Jdánov, Iejov… vão sendo “perfilados” na ordem em que entram em cena. Desta forma vai até grande finale onde o tirano mergulhado numa poça de urina agoniza enquanto uma luta silenciosa acontece nos bastidores e suspende sua última obra, a liquidação da velha guarda, iniciada no 19º Congresso em conjunto com as operações para destruir o que se chamou de “complô dos doutores” no qual foi preso entre outros notáveis, até o seu médico particular num esquema que envolvia um expurgo de judeus de todos os postos , inclusive de parentes, como Polina, esposa de Molotov que amargava uma prisão por suposto vínculo a uma conspiraração sionista- americana onde mostra que seu anti-semitismo era político.
(Continua amanhã)

23.10.17

Aniversário do rei Pelé

Antes de existir o baú: Vale a pena ver de novo. Caricatura do rei Pelé. Hoje é aniversário dele! Nasceu no dia 23 de outubro de 1940. Parabéns!!!
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Algumas biografias de Stalin (artigo já publicado aqui)

Na sequência da memória dos 100 anos da Revolução Russa,aproveito para republicar uma longa "resenha" que fala de algumas biografias de um dos personagens mais complexos e polêmicos desse movimento que surpreendeu e determinou parte significativa da História do século XX. (Vai ser publicado um capítulo por dia).


As verdades sobre Stalin - O mito e as interpretações

Capitulo I - Stalin um baixinho do barulho!
Lenin se tornaria Stalin ou Trotski, se vivesse mais tempo. Essa afirmação curiosa de Isaac Deutscher define o quadro da encruzilhada em que se encontrava a revolução que acabara de ser deflagrada e a raiz da luta que seria travada no final da década de vinte.Na perspectiva de Lenin, Moscou seria apenas uma etapa da implantação do socialismo”, cujo endereço de chegada era Berlim. A grosso modo, pode-se dizer que Trotski representava a radicalização dessa visão com sua idéia de “revolução permanente”.Stalin por sua vez representava a posição de defesa e consolidação do território conquistado sem a expansão de suas fronteiras. Ele venceu a parada, implantou a via do socialismo em um só país e comandou por três décadas o contraditório processo histórico de construção de uma estrutura política, econômica e social totalmente nova num bloco de nações que cobria uma vastíssima região do globo. Durante seu domínio esse “país” saiu do estágio semi-feudal e se projetou como uma potência nuclear. Enfrentou a blitzkieg do exército nazista na segunda Guerra mundial a um custo de 20 milhões de mortes do seu lado, mas venceu Hitler que não viveu para ver os soldados do Exército Vermelho cravando a bandeira com a foice e o martelo no coração de Berlim. E como butim desse conflito expandiu o domínio soviético a um conjunto expressivo de países do leste Europeu.
Logo após a morte de Stalin, quando em 1956 Nikita Kruschev denunciou seus fabulosos crimes no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS, o mundo comunista caiu na real: afinal o “Pai dos Povos”,”O maior Gênio da História”, o “Mestre e Amigo de Todos os Trabalhadores”, o “Sol Nascente da Humanidade”, a “Força Viva do Socialismo” era um assassino?! Mesmo com o desmonte do culto da personalidade, ainda assim, por muito tempo pairou uma nuvem de sigilo sobre esse baixinho atarracado de 1.68m que gravou seu nome numa época sombria- o que o tornou um dos personagens mais enigmáticos da história do século vinte.
Isso explica a voracidade com que os pesquisadores cairam sobre os papéis que vieram a luz com a abertura, em 1991, dos arquivos com os documentos “ultra-secretos” da chamada cortina de ferro. O resultado foi uma enxurrada de biografias. Duas obras dessa novíssima onda chegaram às praias brasileiras: ”Stálin- a corte do Czar Vermelho” do historiador e jornalista inglês Simon Sebag Montefiore e ”Um Stálin desconhecido” dos gêmeos Medvedev. Aproveitando a maré vermelha, até “Stalin- Uma Biografia Política”, excelente, apesar de ter sido escrita por Isaac Deutscher em 1948 foi reeditada com nova tradução.
(continua amanhã)

100 anos de Revolução Russa em caricaturas

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Do fundo do baú: Hoje encerro a série de caricaturas dos principais líderes que fizeram a Revolução Russa (claro que existiram outros, mas esses que caricaturei se destacaram como os que deram os rumos fundamentais ao movimento).
O personagem mais complexo, sem dúvida, foi o ex-seminarista georgiano Joseph Vissarionovich Djugashvili, um baixinho do barulho (tinha 1metro e 68 de altura), também conhecido como Stalin (que quer dizer "homem de aço"em russo).
Um sujeito de carne e osso que os comunistas de boa parte do mundo, por um certo tempo, chamaram de "Guia Genial dos Povos",“Pai dos Povos”,”O maior Gênio da História”, o “Mestre e Amigo de Todos os Trabalhadores”, o “Sol Nascente da Humanidade”, a “Força Viva do Socialismo” e que boa parte do povo russo identificava simplesmente como "Paizinho".
É essa a caricatura dele que trago hoje para finalizar a série.
Sei que é um terreno minado falar desse personagem, acusado de grandes crimes, e além disso, de ser um dos artífices do totalitarismo. Falar nele toca em muitas feridas ainda abertas.
Não é à toa, ele governou com mão de ferro a URSS durante três décadas e atravessou o mar revolto da história que marcou o século XX, transformando um país semi-feudal numa potência nuclear, articulando a sobrevivência do regime soviético com um sistema burocrático monstruoso (herdado do czarismo), intrigas cruéis, deportações para campos de trabalho forçado na Sibéria, processos arbitrários, assassinatos, fuzilamentos, envenenamentos e manobras internacionais rocambolescas. O pior, fez tudo isso com uma habilidade de equilibrista chinês de pratos (quebrando vários é claro). O peso de seus crimes é algo hoje reconhecido como imperdoável, mas ele contraditoriamente proporcionou alguns triunfos.
Sua maior conquista foi, sem dúvida, a vitória sobre o nazismo (junto com os Aliados: Estados Unidos e Inglaterra - a França estava ocupada), claro que à custa de milhões de vidas, tanto dos soldados do Exército Vermelho que liberaram meia Europa, como do povo que enfrentou a fome, o frio e o fogo da artilharia nazi . Um povo que teve suas cidades arrasadas, um país que teve seu parque industrial desmontado e voltado para uma economia estritamente de guerra. Mas ouso imaginar como o historiador Hobsbawn, que se não fosse essa vitória, não existiria o sistema democrático liberal que hoje impera no mundo. Pior, talvez , a parte que não teria sido destruída , poderia ter se transformado num cenário distópico, higiênico (no pior sentido) e controlado exibido na série "O Homem do Castelo Alto" de Philip K. Dick. Um mundo parte "nazificado", parte entregue ao Império nipônico...
Se eu fosse escrever sobre ele aqui, seria um "textão" e levaria um mês catando milho no teclado do computador para não chegar a algo significativo.
Prefiro contar uma pequena história: Estava no começo da leitura de dois livros que tinham sido lançados a partir do ano 2000, que tentavam ampliar a biografia de Stalin, avançando para além daquela tornada clássica, escrita por Isaac Deutscher, publicada aqui no Brasil em 2 volumes, cujo título era "Stalin - a história de uma Tirania".
Tais livros imaginava-se, tinham uma vantagem, pois seus autores alcançaram acesso aos documentos que tinham sido liberados no fim da década de 90 do século passado sobre o período "Stalin". Entusiasmado, me encontrava no meio da tarefa de escrever uma grande resenha sobre o tema, quando fui atingido por um "passaralho". (Qualquer dia boto aqui o genial verbete humorístico "passaralho" feito por um dos geniais companheiros de redação - no estilo do Dicionário Aurélio).
De repente fiquei boiando com aqueles enormes livros e um monte de anotações na calmaria que aguarda os desempregados… Mas não desisti da tarefa, com uma certa teimosia, como precisava manter a mente ocupada e mostrar meu trabalho (tanto de desenho como de texto), criei um blog e lá fiz uma resenha que me custou muitas noites em que queimei minhas pestanas , procurando analisar aquelas biografias disponíveis.
Acredito que a leitura dessa longa "matéria" seria útil para mapear o terreno de quem busca algum entendimento sobre essa figura tão sombria, e participar um pouco da aventura daqueles que tentaram desvendar esse personagem polêmico e contraditório, do qual, por muito tempo se soube tão pouco.
(Após esta série de caricaturas vou postar novamente a ampla resenha sobre as biografias de Stalin. Espero que tenham a paciência de ler)

22.10.17

100 anos da Revolução Russa em caricaturas

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Do fundo do baú: Para continuar a pequena série do personagens da Revolução Russa trago a caricatura de Léon Trotsky (1879-1940),o grande líder revolucionário, o intelectual que organizou o chamado "Exército Vermelho".
Sua trajetória está bem estabelecida na ampla biografia escrita por Issac Deutscher, dividida em três tomos: " O Profeta Armado"(que cobre o período de 1879-1921), "O Profeta Desarmado"(sobre o período de 1921 a 1929) e "O Profeta Banido"(que vai de 1929 a 1940). Além disso para mais detalhes, existe o livro da própria lavra de Trotsky cujo título é "Minha Vida- Ensaio autobiográfico".
Existe porém, um outro biógrafo dele ( e essa informação eu apanhei na Wikipédia), o historiador francês Pierre Broué, que, afirmam certos especialistas, entrevistou contemporâneos de Trotsky e teve acesso a documentos e fontes que Deutscher não consultou - os arquivos de seu filho Leon Sedov, por exemplo. Ele escreveu uma biografia diferente em certos aspectos, com o título "Trotsky".
Como uma das principais cabeças da Revolução de outubro, esse líder era defensor da chamada "Revolução Permanente", caminho que tinha por objetivo espalhar, ampliar o movimento revolucionário pela Europa conturbada daqueles tempos, como forma de sobrevivência da própria Revolução emparadada pelas forças das nacões européias e asiáticas contrárias ao socialismo.
Também teorizou acerca da realização do capitalismo - a famosa teoria da" lei do desenvolvimento desigual e combinado" do sistema, o que explicaria as diferenças entre os avanços econômicos em determinados países e o chamado "atraso" , ou subdesenvolvimento de outros.
Depois da morte de Lenin, Trotsky entrou em conflito com Stalin, que tinha diferentes orientações para a URSS na sua cabeça e entre elas defendia o "socialismo em um só país", tendo a Russia como cenário no qual esse novo sistema deveria se consolidar antes de partir para outros territórios. Trostky perdeu a parada e depois de muitos conflitos dentro do Partido bolchevique, foi obrigado a deixar a URSS e partir para um longo e tumultuado exílio. Talvez ele seja o personagem mais trágico dessa Revolução.
Trotsky, como todo mundo está careca de saber, foi assassinado no México (seu último refúgio), por um agente da GPU ( polícia política que substituiu a Tcheka e que depois virou KGB). O nome do assassino é Ramon Mercader. Essa história foi contada com detalhes no estilo dos "thrillers" , na ficção saborosa de Leonardo Padura, no livro "O homem que amava os cachorros". Parece que essa obra vai virar filme em breve.Existe também uma outra obra de ficção sobre o mesmo tema que tem por título "A Segunda Morte de Ramón Mercader", escrita por Jorge Semprun, que dizem ser excelente.

100 anos da Revolução Russa em caricaturas

Do raso do baú/ Começo hoje uma série de caricaturas de alguns poucos homens que lutaram para fazer acontecer a Revolução Russa, que comemora seus 100 anos neste outubro.
Começo por Lenin, ou Vladimir Ilyich Ulyanov (1870 -1924). Esse baixinho (tinha 1 metro e 65 centímetros de altura) foi a principal cabeça - articulador e agitador da Revolução.
Dizem certos historiadores que ele imaginava no início, ser Berlim o cenário ideal para estourar esse grande movimento do século XX , (esse seria destino final do trem que o trouxe para Moscou), pois o capitalismo e o operariado alemão se encontravam em condições mais avançadas para abrigar suas ideias revolucionárias.
Mas aí surgiram as ironias da História (título de um livro de Isaac Deutscher), a Russia, um país gigantesco (habitado por povos diversos com culturas e dialetos que não se falavam), de economia praticamente semi-feudal, sob um regime autocrático - o czarismo, furou a fila e deu no que deu…Se não tem tu, vai tu mesmo! Morreu 7 anos depois de deflagrado o movimento que transtornou a História da humanidade por um bom tempo. Não viu portanto, a sua obra se completar, apenas os andaimes de sua construção.
Lenin tem uma frase muito interessante entre as várias que cunhou, que diz "Paciência e ironia são duas armas de um revolucionário". Ao que parece, os revolucionários russos não tiveram tempo para seguir seu conselho.
Só conheço, mas não li, uma biografia dele: "Lenin" (publicada no ano 2000 pelo selo editorial Difel - da Editora Brertrand/Brasil), escrita pelo inglês Robert Service. Ela tem como subtítulo "A Biografia definitiva".Não sei se é uma boa biografia, já começa o livro falando que Lenin não era um figura fácil e generosa. Ôpa! Creio é um "tema" muito complexo para de destrinchar em apenas 553 páginas. A conferir.
Obs: Nunca fui solicitado a fazer uma caricatura desse personagem, no meu trabalho na imprensa.
Das várias tentativas recentes que fiz, cheguei ao resultado que mostro aqui .Vou ver se com mais tempo eu consigo algum tipo de aperfeiçoamento na sua caracterização (sem seu tradicional boné- o que tornaria mais fácil sua caricatura).
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18.10.17

Lançamento: "Graça Torta"

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Minha querida amiga, a professora Lígia Dabul, lança seu livro de poemas "Graça Torta", em edição bilíngue (português/inglês).
O evento vai rolar no dia 23/10/2027, no Moviola Bistrô, a partir das 19,30 horras/ Rua das Laranjeiras, 280 - Lojas B e C.
Todos lá!!!

17.10.17

50 anos de TRAVESSIA num texto emocionante de Jorge Sanglard

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Milton Nascimento: “A música caminha comigo como a minha alma”

No palco do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o jovem cantor, violonista e compositor Milton Nascimento, poucos dias antes de completar 25 anos, nos dias 19 e 21 de outubro de 1967, há 50 anos, não poderia sonhar que, a partir de suas três músicas no II Festival Internacional da Canção – “Travessia”, “Morro Velho” e “Maria, Minha Fé” –, trilharia uma autêntica travessia rumo a uma das mais significativas trajetórias na Música Popular Brasileira da segunda metade do século XX e se projetaria como um dos maiores cantores de seu tempo.
Milton sempre entrou de coração em tudo, desde os tempos de contrabaixista nos bailes de Minas Gerais, passando pelos encontros musicais do Clube da Esquina, pela projeção a partir do segundo lugar no II FIC-1967, até consolidar uma trajetória vitoriosa na Música Popular Brasileira. O cantor e compositor nunca perguntou para onde ia esta estrada, se jogou por inteiro no caminho, seguindo “o brilho cego de paixão e fé, faca amolada”. O importante sempre foi “deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo / deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo / brilhar, brilhar, acontecer, brilhar, faca amolada / irmão, irmã, irmã, irmão de fé, faca amolada”, como em “Nada será como antes”, parceria com Ronaldo Bastos.
Milton nasceu às seis horas da tarde, a “Hora do Angelus”, do dia 26 de outubro de 1942, filho de Maria do Carmo do Nascimento, cozinheira por profissão, que deixou Juiz de Fora, em Minas Gerais, para trabalhar no Rio de Janeiro. A “Hora do Angelus” relembra para os católicos o momento da anunciação, feita pelo anjo Gabriel a Maria, da concepção de Jesus Cristo, como livre do pecado original. O seu nome deriva da frase: “Angelus Domini nuntiavit Mariæ”. Em Juiz de Fora, na Câmara Municipal, Milton recebeu o título de Cidadão Honorário e a Medalha Nelson Silva, em 27 de novembro de 2009. A retribuição é por tudo que Bituca fez pela MPB e por suas raízes encravadas na cidade mineira. Desde a década de 1970, Milton coleciona amizades em Juiz de Fora. Quando o médico e músico Márcio Itaboray lançou o livro "Assuntos de Vento", em 2001, esses laços foram consolidados. Em maio de 2009, durante show no Theatro Central, Milton disse que Juiz de Fora é onde ele tem mais amigos. E no dia da entrega do Título de Cidadão Honorário, ele sintetizou: "Sou de Juiz de Fora desde que nasci".
Bituca – apelido dado pela mãe adotiva Lília Silva Campos –, como era conhecido na família e entre os amigos, depois do segundo lugar na classificação geral e da premiação como melhor intérprete do II FIC-1967, inscreveria o nome Milton Nascimento no primeiro time de compositores e cantores que renovariam a MPB. Os festivais injetavam sangue novo no universo cultural brasileiro e a música ainda era uma das poucas manifestações de expressão popular no Brasil dos primeiros anos da ditadura militar.
Em entrevista exclusiva, em outubro de 1987, marcando os 20 anos da premiação de “Travessia”, durante o lançamento do disco “Yauaretê”, Milton confessaria: “Desde criança, eu sabia que ia mexer com a música. Nunca me enganei, nem minha família, nem nada. Todo mundo já sabia que era música mesmo. Apesar de morar em Três Pontas, que naquela época era longe, a estrada era de terra, sabia que ia sair e ia procurar...Se ia vencer, só Deus sabia, mas eu ia tentar. Acontece que a música caminha comigo como a minha alma. Por isso e pelo fato de cada canção refletir um momento meu, chega nas pessoas com a mesma intensidade que estou querendo botar pra fora, e aí não tem barreira de língua, não tem barreira de chão, não tem nada, em qualquer parte”.
O sucesso de “Travessia”, parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, no II FIC-1967, projetou Milton como um cometa. Mas a criatividade e a qualidade musical do novo talento transcenderam os limites da passagem de um cometa e o transformaram num feixe de luz permanente a apontar caminhos na Música Popular Brasileira. O próprio Milton já afirmou: “Isso está nas mãos do que se quiser chamar, pode ser Deus, pode ser destino, pode ser o que for”.
Amigo de sempre e parceiro, Márcio Borges, em depoimento exclusivo, descreve a emoção que tomou conta da apresentação de “Travessia”: “De tarde nós saímos do hotel, todos no mesmo ônibus, rumo ao Maracanãzinho. Eu ia sentado ao lado de Toninho Horta, com quem havia classificado a dolorosa canção ‘Correntes’. Mas no ônibus só se falava no Bituca, o cara que havia classificado três canções, uma delas considerada a favorita para ganhar o festival. Senti uma emoção muito grande quando o ônibus ultrapassou os portões que davam direto no fundo do enorme palco. Parecia dia de futebol. As filas já davam volta no estádio e ainda nem era de noite. O ensaio geral foi impressionante. Astros e estrelas da música nacional e internacional circulavam em áreas restritas – e eu lá! Quando caiu a noite, vi o estádio encher-se de gente. Vi as arquibancadas se colorirem de todas as cores e matizes, cabelos, cartazes e bandeiras. Vi chegar a hora de ‘Travessia’. A favorita de todos. Bituca colocou o Maracanãzinho de pé e foi classificado. ‘Correntes’ ficou de fora. Fomos torcer pelo Bituca e pelo Fernando, que surpreendentemente, e contra todas as emoções presentes, inclusive a do vencedor Guarabyra, conseguiram apenas um segundo lugar. Na reapresentação da música, vencedora moral e imortal, o apresentador Hilton Gomes chamou os nomes de Milton Nascimento e Fernando Brant e eles saíram de perto de nós para voltarem ao palco. Eu e Gonzaguinha corremos atrás deles e nos sentamos no limite extremo entre a coxia e o palco, bem aos pés dos nossos amigos. Sei que quando vimos e ouvimos o Maracanãzinho cantar com os dois e soltar a voz nas estradas, não conseguimos conter a emoção. Eu e Gonzaguinha nos abraçamos e deixamos nossas lágrimas correrem soltas, molhando os ombros um do outro. Quarenta anos se passaram desde aquela noite. Mas aquelas lágrimas serão para sempre”.

Trajetória de sucesso

A trajetória do cantor e compositor mineiro mais carioca que existe – Milton nasceu no Rio de Janeiro e foi criado em Três Pontas – é contada em detalhes na biografia “Travessia – A vida de Milton Nascimento” (Record), da jornalista mineira Maria Dolores, nascida em Belo Horizonte e criada também em Três Pontas. O livro, que está na segunda edição, é um mergulho na vida e na música de Milton e revela aqui e ali detalhes da consolidação do mestre do Clube da Esquina como um ícone da MPB.
Em depoimento exclusivo, Maria Dolores fala do livro, para dizer sobre Milton: “Essa biografia começou como projeto de conclusão do meu curso de Comunicação Social - Jornalismo, na Universidade Federal de Minas Gerais, em 2003. Eu queria fazer um livro reportagem de algo relacionado a Três Pontas, cidade onde cresci. Entre os temas mais interessantes – a cafeicultura, o Padre Victor (um padre negro milagreiro) e o Milton Nascimento – preferi fazer sobre o Milton. A idéia era contar a vida dele na cidade. Aproveitei um dia que ele estava em Três Pontas, criei coragem, e fui atrás dele. Disse que ia fazer o trabalho e pedi uma entrevista. Ele aceitou fazer. Uns quatro meses depois fui fazer a entrevista e aí eu já tinha realizado uma pesquisa sobre ele, e descoberto que não havia quase nenhum material biográfico do Milton, a não ser essas biografias resumidas de sites, revistas, etc.. O que tinha de mais completo era o livro do Márcio Borges, ‘Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina’, que é ótimo e tem o Milton como personagem principal, mas aborda só um período da vida dele, até bem extenso, e fala também dos outros personagens do Clube da Esquina. Resolvi então escrever uma biografia do Milton, a primeira, ainda mais ao descobrir o quanto a vida dele era incrível, como um romance”.
A autora confessa que conhecia o trabalho dele, mas não profundamente: “Até então nunca tinha sido uma pessoa que tem o costume de ouvir música, engraçado isso, né? Então, primeiro me apaixonei pela história, pelo personagem. Depois, pela obra, pelo artista, que, no final das contas, descobri não ter como separar um do outro. Pedi outras entrevistas e ele concordou. Deixou também que eu acompanhasse ensaios, shows, fosse na sua casa, pesquisasse seu material pessoal. Para a faculdade entreguei um trabalho resumido, só da vida dele em Três Pontas, e depois continuei”.
O livro abrange o período que vai de 1939, antes mesmo de Milton nascer, até 2005. Maria Dolores afirma que já conhecia o cantor, “claro, desde criança, mas não tinha uma relação próxima com o Milton” e fala da proximidade que a elaboração do livro possibilitou: “nesses quatro anos e meio de trabalho, que eu passei a conviver com o Milton, descobri a pessoa incrível que ele é, um ser humano especial, um artista especial, cheio de mistério ao seu redor, magia, alguém que tem uma generosidade imensa. Não tem como trabalhar com o Milton, com o Bituca, né, e não se tornar amigo dele, ainda mais ele, que tem tantos amigos. Hoje posso dizer que me tornei uma amiga dele e ele se tornou alguém especial pra mim, uma relação dessas que a gente sabe que dura. Eu não esperava que isso fosse acontecer, na verdade, nem pensava nisso, mas foi uma feliz surpresa descobrir essa amizade e a maior conquista com o livro”.
Desde a primeira parceria com Fernando Brant, “Travessia”, Milton abriu alas para uma geração de grandes músicos e compositores mineiros e nunca transigiu sua arte, nunca aceitou os apelos fáceis da massificação. Na entrevista citada, Milton declarou incisivo: “A massificação vai bitolando a cabeça das pessoas e bitola a música popular brasileira também”. Assim, o cantor e compositor sempre procurou a qualidade musical, sabedor de que escolhera um caminho mais difícil, porém, passadas quatro décadas de seu batismo de fogo com a interpretação de “Travessia”, fica a certeza de que a criatividade e a qualidade resistem a tudo.
Fernando Brant, em depoimento exclusivo, afirma que “a música de Milton Nascimento não se explica, ouve-se. Desde que o conheci, e à sua música, o Bituca é um repertório de surpresas interminável. Até hoje, quando ele me mostra algo que acabou de compor, sua genialidade não dá descanso. Ele me surpreende agora como me surpreendia 30 anos atrás. A melodia, o ritmo, a harmonia, ele sintetiza o mundo em suas músicas. Devo a ele não só o fato de encontrar uma profissão que me sustenta e dá prazer, como a oportunidade de colocar minhas palavras e minhas idéias em canções belas e diferentes. E, ainda por cima, ele as canta. Ele é fonte inesgotável da música popular brasileira, um gênio”.

O artista é o arauto da liberdade

Na referida entrevista exclusiva, Milton adverte que criaram um tipo de música, um tipo de som, que virou tudo a mesma coisa e, num mercado fechado, a renovação de artistas é mais difícil, porque as grandes gravadoras determinam a política para a área musical, só investindo naquilo que elas acreditam que dá retorno. E revela: “Eu apareci numa época em que todo mundo estava brotando, com mil experiências diferentes, não tinha um som pasteurizado. Nos últimos tempos é mais difícil a pessoa nova ser ouvida, mas não impossível”. Já em 1987, Milton advertia na mesma entrevista: “É terrível ver um país como esse, onde o músico se forma por esforço próprio, porque não tem escola, nem nada. O Brasil é um desamparo total, e com tantos músicos fantásticos tendo que tocar qualquer coisa, sem poder desenvolver seu próprio trabalho musical, é muito triste. E olhe que o país é rico, é tão grande, com tanta diversidade e o povo é muito musical. Mas prefiro não perder a esperança, porque o dia em que eu perder a esperança, paro de cantar, minha vida acaba”.
Para Milton, o Brasil é um país onde a mistura é tão forte que todas as influências que vierem nas coisas feitas honestamente virão para acrescentar, mas nunca para esmagar a cultura brasileira: “medo de influência esmagar eu não tenho nenhum não”. E arremata: “O lance da arte é a liberdade, o artista é o arauto da liberdade”.
Nélson Ângelo, parceiro dos primeiros tempos, em depoimento exclusivo comenta: “Meu primeiro contato com Milton Nascimento, meu amigo Bituca, deu-se no ano de 1964, em Belo Horizonte, logo após um show do grupo Opinião, realizado no Teatro Francisco Nunes. Desde então construímos uma sólida amizade que dura até hoje, pautada em muito respeito, atenção e paixão pela música. Sempre fomos parceiros em diferentes formas: como amigos, na vida, em trabalhos. Antes mesmo de ‘Travessia’, já curtíamos e nos admirávamos. Nesta época compus ‘Fim de caminho’, ‘Canto triste’ (anterior a do Edu e Vinícius; claro que mudei o título da minha!) e o Bituca tocava pra mim ‘Crença’ e ‘Terra’, parcerias dele com o Márcio Borges. No mesmo período, compus com o Valdimir Diniz a música ‘Ciclo do Ouro’, que foi muito elogiada pelo Milton. Ele foi um grande incentivador do meu trabalho. Mais tarde um pouco, ele e o Márcio fizeram uma que foi dedicada a mim (pelo menos foi o que me contaram), chamada ‘Irmão de fé’”.
Ainda segundo, Nélson Ângelo, “quando o Bituca conheceu o Fernando Brant, foram logo estreando com ‘Travessia’, e muitas outras que surgiram e marcaram seu lugar na história. Mais tarde, eu e ele fizemos ‘Sacramento’ e ‘Testamento’, ambas músicas minhas e letras do Milton. Mais tarde ainda, o samba enredo ‘Reis e Rainhas do Maracatu’, com mais dois parceiros: o Novelli e o Fran”.
Portanto, assegura Nélson Ângelo, “minha opinião sobre o Milton e parcerias é abrangente da mesma forma como foi consolidada nossa amizade. Sou suspeito sobre todas as instâncias e circunstâncias. Ainda bem que a admiração e a boa impressão são compartilhadas com tantas pessoas mundo afora que conhecem o assunto”.
O livro de Maria Dolores aponta “Travessia” como a primeira letra da vida de Fernando Brant, escrita sob pressão, jogada, num papel dobrado, na mesa da padaria São José, em Belo Horizonte. O nome da música foi inspirado no livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, que tinha como última palavra da obra o termo “Travessia”. O próprio Milton explicaria a escolha: “O importante não é a saída, nem a chegada, mas a travessia”.
A segunda letra de Brant foi “Outubro”, e o parceiro teria dito anteriormente a Milton: “Agora que você me pôs nessa, trata de compor outra música para eu colocar uma letra logo, senão estou perdido!”. O assédio da imprensa, logo após as apresentações no II FIC-1967, mexia com os dois tímidos compositores mineiros. Segundo Maria Dolores, o cantor, compositor e violonista Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura no Brasil, disse certa vez que a timidez de Milton não é uma timidez pura, mas um ato de observação: “Ele é como essas pedras enormes da Gávea, quietas, silenciosas...observa tudo ao seu redor, fala com o olhar e, quando usa palavras, diz a coisa certa no momento certo”.
Caetano Veloso também fez revelações, no livro, sobre Milton: “Ele é uma força profunda da expressão cultural brasileira, com raízes muito fortes na nossa história e com um talento na área da genialidade, uma coisa meio espiritual, e se há algo que a gente possa chamar de espiritual é exatamente isso, é quando alguém está ligado a tantas coisas tão importantes por fatores casuais, tantas vezes. Isso para mim é o caso de Milton, é o caso mais radical desse acontecimento no Brasil”.
Só mesmo Milton Nascimento para tornar permanente toda a emoção de coisas tão simples e fundamentais como as brincadeiras de crianças, a cumplicidade entre amigos de verdade, a pulsação de um povo na luta pela liberdade, a dor do amor e do desamor, tudo isso com “o coração aberto em vento, por toda eternidade, com o coração doendo de tanta felicidade”.
No livro, “Os sonhos não envelhecem – histórias do Clube da Esquina” (Geração Editorial), escrito por Márcio Borges, o parceiro e amigo mergulha na essência das vivências desde os tempos em que se conheceram no Edifício Levy, em Belo Horizonte, até a gravação do disco “Angelus”, em 1993. Este disco foi concebido por Milton para simbolizar sua trajetória de vida e seu compromisso com a música.
A partir dos anos 1960 e até esta primeira década do século XXI, Milton e seus parceiros, como Ronaldo Bastos, deixaram pistas sobre suas intenções: “Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / beber o vinho e renascer na luz de todo dia / a fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada / o chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada / deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia”. Não é à toa que, em outra parceria com Ronaldo Bastos, Milton cantou: “Eu já estou com o pé na estrada / qualquer dia a gente se vê / sei que nada será como antes, amanhã”. Com seu alegre e contundente canto de fé, de esperança e de sonho, Milton Nascimento se tornou um autêntico arauto da liberdade e, junto com outros companheiros de eterna travessia, teceu e entreteceu uma ponte para atravessar este verdadeiro oceano que é o Brasil.
Ao mesmo tempo, Milton – como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso – é o oceano atravessado e o barco que atravessa, e vai solidificando uma ponte sobre este mar. Essa feliz definição de Gilberto Gil sobre expoentes de sua geração sintetiza a essência musical de compositores que renovaram o panorama da MPB e permanecem atentos, como faróis. Afinal, Milton fez de seu canto um canal direto até onde o povo está, muitas vezes “com sabor de vidro e corte”, mas sempre semeando o sonho e a esperança de ter fé na vida.

A comunhão da criação

Um dos momentos mágicos vivenciados por Milton Nascimento, simbolicamente num dia dedicado à consciência negra, em 20 de novembro de 1999, foi quando o pintor mineiro Carlos Bracher, mergulhado nas cores e ao som das canções do Clube da Esquina e da Nona Sinfonia de Beethoven (1770 – 1827), pintou em óleo sobre tela, durante cerca de 1h30, o retrato do cantor e compositor, antecedendo uma apresentação no baile-show intitulado “Crooner”, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Pela primeira vez, Bracher – um dos grandes pintores brasileiros – retratava um artista negro e foi buscar inspiração no erê que dá vivacidade a Milton Nascimento.
Ao expressar o menino que impregna a alma de Milton de alegria e de generosidade, o pintor mineiro celebrava a eterna juventude do autor de “Travessia” (em parceria com Fernando Brant). E Milton estabeleceu com Bracher uma relação de intensidade imensurável. Simplicidade e criatividade de mãos dadas e corações abertos, estabelecendo um elo de cumplicidade e possibilitando um encontro de almas capazes de irradiar harmonia, onde cada um a seu modo criou as condições para estabelecer a alquimia das cores e dos sons. O artista da voz e o artista das cores unidos na comunhão da criação.
Ao reconhecer-se como um erê (como os meninos da capa do antológico disco “Clube da Esquina”, de 1972), Milton posou para o retrato de Bracher deixando fluir todo o sentimento de eternidade que sua música passa e que sua travessia revela, trilhando o caminho da criatividade e do compromisso com a cidadania cultural e com a vida. Como o romancista Guimarães Rosa e o poeta Carlos Drummond de Andrade, Milton Nascimento encarna em sua obra musical a essência de Minas Gerais, a alma brasileira e a universalidade artística dos grandes criadores. Como um mago das cores, Bracher tão- somente revelou essa magia num retrato com a força da emoção de Milton.
No verso do óleo sobre tela, o pintor escreveu: “Meu caro Milton, que assim seja, que este Deus da vida e da arte nos possa abençoar. Obrigado Milton, por essa força contida na sua vasta voz”. Entre a timidez e a felicidade estampada, o cantor, depois de trocar um forte abraço com o pintor, confidenciou ao jornalista, que acompanhou tudo, a satisfação de ter vivenciado aquele momento de intensa troca de energia e de revelação de sua alma de eterno menino nas cores densas e inspiradas de Bracher.
O retrato está na sala da casa de Milton.

Texto de Jorge Sanglard
(Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil)

14.10.17

Caricatura de José de Alencar

Do fundo do baú: ilustração com caricatura de José de Alencar (1829 - 1877).
Confesso que não tenho a mínima ideia do que estão fazendo aí essas outras figuras : a famosa gueixa de "Madame Butterfly", seu amor, o tal tenenete da marinha americana e as moças nuas no fundo da cena. Decerto tinham relação com o conteúdo da matéria, que eu não me recordo mais. Tudo isso saiu no caderno Ideias do old JB.
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12.10.17

Um cartunzinho para o dia da criança

Do fundo do baú: Já que hoje é dia da criança, um cartunzinho infantil - acho que educativo, he he
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11.10.17

Homenagem ao Messi

Traço rápido: chargezinha esportiva em homenagem ao Messi, que regeu, tocou o bandoneón e animou a festa que vai ser a Copa de 2018.
Dizem as más línguas que apresentaram o bandoneón a ele, minutos antes de começar a partida... E eu digo que tocou como Piazzolla (um tango bem moderninho).
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